quarta-feira, 4 de novembro de 2009

saudade

sentimento invisível paralelo intrínseco vaza pelos poros mas não sai da cabeça de cabeça tira o fôlego arranca as incertezas dilacera a rotina acelera a espera e espera, espera. Palavra não-dita situação idealizada um grito abafado tesão acumulado verdade assumida sufoco insônia ansiedade palavras soltas travesseiro cocacola caminhada pão-de-mel procrastinação. Compasso dias horas meses anos décadas aqui, ali e em qualquer lugar. sentimento barato mesquinho egoísta filho-da-puta-mesmo te quero te amo te odeio te desejo te desconheço te traio comigo mesmo. Gozo solitário paixão destemida cortina de fumaça cansaço perda perdão arrependimento volta revolta retomada recomeço recesso rebelião revoada pássaro longe que talvez volte, talvez.

domingo, 20 de setembro de 2009

ação e reação

Tudo na vida tem de ser conquistado sem expectativas. Fomentamos demais as respostas que nem sempre virão de nós mesmos. Se algo genuinamente acontece e não estamos esperando por isso, nos surpreendemos. Não subjulgamos, nem criamos respostas prontas. Apenas recebemos uma ação positiva, que surge como consequência direta do que somos e representamos pro mundo. Tudo é consequência, não é causa.  

Ao pensar, criamos a nossa verdade. E a verdade é um sentimento: ela não é in, é out. O pensamento não corresponde à uma ação concreta. É preciso mais. Lembrei de uma frase incrível que ouvi na peça Regurgitofagia, encenada há alguns anos por Michel Melamed: 

"Antes de mais nada, tudo: porque diferentemente dos ávidos antropófagos, já deglutimos coisas demais"


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

trilho

De longe eu ouvia os longos apitos do trem. uma, duas, várias vezes. Um gole de leite com chocolate bem quentinho, daqueles que só a minha vó sabia preparar. "vó, ainda tá passando trem? À essa hora?" Adormeci. Trem me lembra misto quente. Aquele que o garçom trazia. Hum, e a coca-cola meio-sem-gelo, não tem problema. Eu tava mais interessado na paisagem que eu via na janela. Estava mais interessado em saber qual seria a próxima parada da viagem. "Já chegamos na casa-do-tio, vó?" Tenho saudade das frases-com-hífen, todas elas. De pão-de-forma sem casca, das piadas-sem-graça da minha tia, de tirar uma soneca-sem-pressa no caminho e acordar com os mesmos apitos do trem que sempre me fizeram dormir tão bem. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O Mercado de Comunicação

O mesmo mercado que premia, segmenta. O mesmo mercado que te bem remunera, te robotiza. A diferença dos projetos acadêmicos para os de interesse comercial é descomunal. A arte e o conceito ficam a segundo plano no mundo capitalista. O "como" e o "porquê" já não mais importam, mas o "quanto" e "quando". Saímos da faculdade na vontade maior de fazer projetos munidos de base teórica, de referencial e pesquisa artística. Projetos diferenciados, que não atendessem somente aos interesses momentâneos de mercado, aos interesses de alguns; projetos com cor, textura, som - e alma. E ficamos na vontade, na maioria das vezes.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

dois pontos

- Eu tô aqui. Me encontro aqui. Mas eu vou chegar lá.
- Lá aonde?
- Lá, oras. Você também não vai?
- Eu não, prefiro ficar aqui. Tá todo mundo aqui - e em pouco tempo - menos você.
- Eu ouço tanta gente falando que chegou lá. Não foi fácil, mas nada é fácil, né?
- Prefiro ficar aqui. E é igualmente difícil.
- Eu só vou ter certeza quando eu chegar lá. Aqui não dá pra saber.

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- Cheguei. Tô aqui. Mas e aí, como estão as coisas?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

verdades (in)confessáveis

eu sou out, não in. e não adianta me contestar. porquê eu tô aqui pra mudar, pra fazer acontecer. não vou ficar parado, não vou deixar de dizer que te amo. e que te odeio também. não vou passar por cima do meu caráter, nem ficar fazendo charme pra quem não vale a pena. eu vou dizer sempre o que eu quero falar, com todas as letras, c-a-r-a-l-e-o. Parafraseando Secos e Molhados: "eu não sei dizer nada por dizer, então eu escuto". Se é pra fazer teatrinho, eu saio de cena. Mas se pra fazer o mundo girar, eu subo no palco e começo meu monólogo, sem gaguejar.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

guiness book of nothing

o que de fato nos impulsiona? o que faz a gente seguir em frente? A própria inércia em que nos encontramos? Um propósito específico, ou a falta dele? A tentativa desenfreada de se encaixar em alguma coisa (ou de ser aceito) faz com que a gente vomite sem simplesmente checar o que temos, de fato, deglutido. Muita gente passa a vida inteira procurando o invisível, cheio de questões e promessas. Faz de um tudo para se questionar, para se parametrar, para se distanciar - até de si mesmo. Esquece, por um momento, de viver a vida focado no mais incrível e absoluto nada. Esquece dos bons amigos, dos momentos bons, do "bom dia", da alegria-de-criança-quando-acorda. É bem mais fácil falar da grama do vizinho, dos problemas da fulana, da calça cafona da cunhada do tio da avó. E é isso. Seguem frustrados, questionando tudo, absorvendo nada, vomitando mofo, deglutindo merda. Mas, o que de fato nos impulsiona? As grandes metas, os amores impossíveis, as taras inconfessáveis, os quereres mais imprevisíveis? Será mesmo? E assim, seguiremos vivendo neste extremismo desenfreado, falando mal das putas e dos viados, enaltecendo o belo e o perfeito, traindo as esposas, chantageando o chefe, querendo a camiseta mais hype, mais fashion, mais da modinha. Seguiremos buscando o amor-acima-de-tudo, da gozada-mais-perfeita, do sequestro-que-durou-mais-tempo, do namoro-que-durou-menos. Seguiremos traçando a vida como um guiness book, e esquecendo que ela não tem chegada. Nem final.